10 Janeiro 2010

Olhar pra trás.

Circulando entre o passado e o presente, que eu não troco por nada mas não é nem por isso que a gente deixa de imaginar.
A vida coloca a gente diante de algumas situações que não estamos prontos pra enfrentar. E a gente enfrenta, mesmo não enfrentando. E sai marcado de uma forma ou de outra.
Depois que o tempo passa, a gente se pergunta como seria se tivesse conseguido transpôr aquela barreira. A gente enxerga que o monstro cascudo e horripilante na verdade era uma barata; feia, mas não de outro mundo. A gente enxerga que atrás daquela barreira tinha o rio bonito, que sempre esteve lá, antes.
E a gente se pergunta.
A gente se pergunta se foi fraco demais pra não transpor a barreira.
Se foi pouco generoso de não dar até a útima gota das nossas forças pra ajudar a derrubá-la.
Se o rio depois disso não era ainda mais lindo e fresco.
Mas o fato é que a gente não tava pronto pra passar. Não era a hora de passar. Talvez de forma alguma passaríamos.
E já passou.



...talvez transpondo o rio não conhecêssemos as belas pradarias.

04 Agosto 2009

Samuel

Alguém lembra como é de fato ter alguém olhando fundo nos seus olhos, sem nenhuma intenção ou pretensão, lá fundo, por tempo indeterminado? Na verdade, olhando e só, como se o tempo não importasse e nenhuma barreira ou desvio ou intenção consciente pudessem aparecer dentro dessa conexão? Só o contato do olhar, fundo. Não? Lembra, então, do último bebê com o qual você teve contato.

Os bebês tem esse poder.
Provavelmente ele vai diminuindo à medida em que eles crescem e viram adultos.
Pro adulto ter esse poder, só fazendo ele crescer à medida em que ele não deixa sua alma diminuir.

28 Julho 2009

Fechar o chuveiro pra passar xampú.

Meu irmão me disse há alguns dias que hás uns bons 8 ou 9 anos atrás, quando estávamos no colégio, uma menina da minha classe veio perguntar-lhe "Joãozinho, é verdade que a sua irmã fecha o chuveiro pra passar xampú?!".
Na verdade, eu fecho sim o chuveiro para passar condicionador (xampú não, porque é muito rápido), porque eu desembaraço o cabelo no banho e isso leva algum tempo. Só não tinha a menor noção de há quanto tempo eu tinha esse hábito.
Nos tempos atuais, onde a palavra de ordem é "sustentabilidade", não precisa "googlar" muito pra descobrir que 1 minuto de chuveiro aberto pode gastar em média 20 litros de água. Nem precisa ser muito informado para já se ter ouvido as previsões apocalípticas de que em menos de 20 anos poderemos viver guerras motivadas pela disputa de territórios com água potável.
Quando eu era mais nova, certa vez alguém me comentou que em algum lugar na África as pessoas tomavam banho de bacia e só podiam usar um pouco de água para se enxaguar. Não tenho a menor idéia da veracidade ou de quão acurada era essa informação, só sei que a imagem para mim foi muito forte na época. Talvez aí eu tenha começado com esse hábito, sei lá há quantos anos atrás.
Me surpreende é que isso possa soar tão esdrúxulo para algumas pessoas.
Acho que falta na maioria das pessoas com uma vida confortável nesse mundo a capacidade de imaginação. Antes até da capacidade de se colocar no lugar do outro, a capacidade mais primária de imaginar, que possibilita essa outra. Se a gente realmente se imagina, com todas as cores, vivendo - não uma aventura, mas um cotidiano - num lugar sem água pra beber, eu acho que a coisa muda de figura.
Falta também uma noção de conjunto. Em Roma, me disseram nessa viagem que fiz agora, as pessoas não pagam conta d'água. Lá tem pequenas fontes, parecidas com hidrantes, espalhados por toda a cidade, que ficam vertendo água pro chão, e todo mundo pode beber água ali. Prático, não? Estranho também. Para a minha surpresa, dissseram que essa água vem do subterrâneo e que lá tem água pra xuxu. Assim como nós no Brasil, são abençoados por ter tanta água assim disponível. Mas peraí... vivemos em grandes ilhas que são os continentes, de fato. Mas a gente já não viaja o mundo? Se faltar água em outros lugares de gente que também tem essa vida confortável E poder, é aqui que o bicho vai pegar daqui a 20 anos. Pois é, na hora da sobrevivência, a regra vale pra todos: ninguém vive sem água. E o homem corre atrás da sua sobrevivência, isso a gente já sabe.

Sei lá, acho que talvez o hábito de fechar o chuveiro pra passar condicionador seja uma pequena participação minha na luta pela paz mundial. E olha que eu nem sou Miss.

PS: Mentalidade pega.

29 Maio 2009

Soberba



Tive um insight agora. Não seria esse elefante do Dalí, detalhe mais ao fundo do quadro, que está nesse e em outros quadros dele, uma ótima metáfora para a Soberba?
Estruturas desproporcionalmente frágeis seguram uma massa corpulenta de peso descomunal. E se elas se romperem, imagina o peso que não cai sobre aquele que se arrisca a carregar o bicho?

Eita. O estranho bicho homem.

(Dream Caused by the Flight of a Bee around a Pomegranate - Salvador Dalí. Imagem do site www.art.com)

18 Fevereiro 2009

"Esquartejado em dois"

Imaginem vocês a dor que um marisco não sente quando alguém aaaaaaabre aquelas duas conchas apertadinhas dele pra disfrutá-lo. Lembrem da força enorme que eles tem, quando vocês ainda crianças tentavam abrir os que encontravam na praia.
Ou mesmo a dor de um pistache sendo aberto pra que a gente possa também aproveitar aquele sabor maravilhoso. Lembram daqueles pistaches que vinham tão fechadinhos que tinha que quebrar a casca? Pensa na força que eles têm. Imaginem vocês a dooooor que esse pobre coitado do pistache que vem com uma brechinha não sente quando a gnte puxa as duas casquinhas até "TLEC" ele abrir todo.
Façam um esforço para realmente imaginar o tamanho dessa dor, do marisco e do pistache.
Mas depois é tão gostoso, né?
Agora imaginem um coração que viveu a vida toda achando que era tartaruga, se enfiou dentro do casco sem querer sair, dando só uma escapadinha de vez em quando. E imaginem que o dono desse coração resolveu que ele tem que sair daí. Não bruscamente, que esse dono não é nenhum carrasco. Começando com um buraquinho beeem pequenininho no casco, mas pra de algum jeito começar a colocar esse coração pra fora. Imaginem A DOR que ele não vai sentir. Vai ser gostoso depois, é claro. Mas essa dor deve ser como ser "esquartejado em dois", que nem o marisco e o pistache.


Pela primeira vez eu me presto voluntariamente a sentir dor. Espero que aguente.

***

[Outro assunto. Espaço que eu me reservo pra uma homenagem.]
Lôra, espero que a sua luz seja levada pra um lugar bem bonito lá no espaço. Voa bem!

12 Fevereiro 2009

Simples assim.

Estava eu, no último fim de semana, em Itanhaém, litoral sul de Sampa. Deitada na rede, devorava as peripécias de Amory Blaine em "Este Lado do Paraíso" (F. Scott Fitzgerald), que em breves momentos se torna aquele livro em que a gente simplesmente não consegue ir pra frente.
Nesse momento, quando a gente abaixa o livro e fecha um pouquinho os olhos, percebi que a Laura e a Isabela, que têm uns 6 anos, chegavam de mansinho pensando que eu estava dormindo. Eu ri e disse que estava lendo. (Elas não disseram, mas sei que queriam brincar na rede) e a Laura me perguntou: "Por que você não lê uma página por dia?".

Como é que que eles conseguem fazer tudo tão simples?

05 Setembro 2008

One-girl-circus

(Garatuja que estava perdida nos arquivos do meu computador. Acredito que seja de janeiro ou fevereiro de 2008. Achei interessante publicá-la, mesmo inacabada, não lapidada.)

Meu desejo escorre feito fumaça de picadeiro, toca sua pele e você, com os dotes próprios de um grande mágico, faz que nem sente. E então sorri pra mim. E eu, que talvez seja até um pouco palhaça, sorrio pra você e me transformo no circo todo de uma vez só! Me sinto uma domadora de leões prestes a perder a cabeça nos dentes de um desejo feroz; uma contorcionista invisível, que, sem dor aparente, contorce as entranhas admiravelmente; uma acrobata insistente, que mesmo depois de tanto cair do trapézio e quebrar as costelas continua trapeziando sem trapacear. E nesse circo desconjuntado, você continua a brincar. E eu me contento em ser apenas mais alguém na platéia, só porque sou diferente: só eu conheço seus truques.