E digo que dói quando pensamos na nossa "luta insana pelo pão de cada dia"* e nos damos conta que na verdade ela não é nem um um terço tão insana quanto a luta de outros que dividem conosco esse monte de matéria redondo, chamado planeta Terra. Dá um nó na garganta, um brilho nos olhos e uma dor na boca do estômago quando não sabemos mais a que luta insana devemos nos dedicar: se pela luta pelo nosso pão-de-cada-dia, ou se pelo deles. E se pelo deles, como fica o nosso? E sem o nosso, como lutar pelo deles? E se só nós por eles, quem por nós? E quem pelo mundo? E o que fazer dos que fecham a janela dos carros, afastam-se com suas casas fielmente protegidas pela tecnologia, mas não protegidas da culpa? E como fica tudo, meu deus? E assim prossegue o martírio...
Enquanto nos sentamos em nossos confortáveis sofás, em nossas lindas casas (porque sim, é muito bom ter uma linda casa, quem pode nos culpar por querer conforto?), alguns ficam simplesmente à deriva. Deitados sob o ponto de ônibus, no chão molhado, como vi hoje na paulista. Em frente ao fast-food norte-americo-paulistano com seu pedaço de cobertor sujo, esperando talvez que alguém lhe ofereça um lanche (e nem direito a comida decente eles tem?).
Condições degradantes. É isso que eu vejo para alguns. E fora daqui, e além-mar, tudo se repete.
E continuará se repetindo nessa sociedade porca.
E sozinha, eu não sei o que fazer.
E isso dói.
E como dói.
*Sérgio Buarque de Hollanda, em "Raízes do Brasil"
25 Setembro 2005
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3 comentários:
Eu acredito que coisas para fazer não estão em falta! Pelo contrário!
A luta, a militância, começam no âmbito mais interno possível. Para poder começar a mudar alguma coisa, primeiro tenho que mudar a mim mesmo. Qual é nossa capacidade de mudar de opinião? De ouvir os outros? De nos deter e observar?
Antes do jeito como tratamos as pessoas, do respeito dispendido a cada uma, da honestidade, da ética, da intervenção social, da associação de bairro, da rádio comunitária, da ONG, da célula autogestionada, do sindicato...
antes de tudo isso, precisamos consertar duas lentes. As lentes com as quais entendemos a nossa realidade. Sem a Revolução-Óptica-Interior, nada disso vai pra frente...
hoje foi foda.
eu abri a primeira página do jornal, às 6 da manhã e vi uma foto de dois caras TOMANDO BANHO NO BUEIRO.
comecei a chorar na hora.
Olha o que você fez postou um texto que fez um meninão chorar.
Sr. Aninha Joãozinho esse texto "Martírio Mental" é complexo demais pra se encaixar no contexto de garatuja...
Olha não se martirize por causa disso mas não deixe de dar o devido valor. Faça sua parte que se fizer bem feita se já cumpriu seu papel.
Ahhh quase me esqueci... Não existe Sérgio Buarque de Holando o nome certo é CHICO...CHICO!!!(o segundo Chico é pra você ler com intonação de bronca de professora de português de 3ªsérie)!!!
Bjos Moça
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